A Revolta dos Vacinados
A atitude diante dos desafios da vida é profundamente ideológica. Aceitar ou rebelar-se são escolhas que dependem da qualidade da informação disponível ao sujeito. O problema, contudo, é quando esses dados são oriundos, primariamente, de um delírio coletivo.
2/2/20264 min read


Este não é um texto sobre nutrição, prometo.
No início deste ano de 2026, o secretário de saúde dos Estados Unidos anunciou que estariam “acabando com a guerra à proteína”. Ainda que a declaração faça sentido vindo da nação mais bélica do mundo, essa é uma guerra que, na verdade, nunca existiu.
Em algum momento do século passado, diretrizes de saúde (impulsionadas por certos lobistas) buscaram promover a redução no consumo de carne vermelha, especialmente os cortes ricos em gordura. Dados científicos indicavam que o consumo excessivo de gordura saturada, aquela presente nos produtos derivados da vaca e do porco, causava uma série de problemas de saúde, principalmente cardíacos. Esses dados continuam válidos, mas a eles somaram-se evidências de que o consumo exagerado de praticamente qualquer tipo de comida traz riscos.
O cenário do lobby mudou. Em vez de uma dieta baseada em grãos integrais e carboidratos, a indústria da carne agora promove o consumo de banha, bisteca e brie, numa nova roupagem da bancada BBB. Decidiu-se, em algum ponto, que a cura para os males do novo milênio reside em alguns produtos como proteína e gordura animal, gordura e leite não processado. Até o sebo de boi entrou na dieta, algo que na minha juventude tinha muitas utilidades, exceto como fonte de alimentação humana.
Longe de mim defender os hábitos alimentares dos anos 90, afinal, a bebida padrão no almoço da minha família era suco em pó, mas é fundamental analisar o que subjaz a essas novas tendências.
Dar ao povo o que ele quer
É natural que alguém que se sinta cansado, desconcentrado e pesado, enquanto enfrenta variados problemas de saúde e estética saia em busca de soluções. O dilema surge quando a orientação clássica que consiste em fazer exercícios e manter uma dieta equilibrada não resolve essas dores.
Com frequência crescente, encontramos pacientes com exames perfeitos, mas carregando uma longa lista de queixas que não condizem com seu colesterol e glicose dentro dos valores de referência. Retomamos aqui o que discorri no texto anterior: a exigência de cumprir uma lista colossal de pré-requisitos para que a vida seja considerada "boa". A questão é que ninguém consegue dar conta de tudo. Na esteira dessa impossibilidade, surgiram as novas tendências minimalistas que, tal qual qualquer atitude bélica, buscam mais destruir o antigo do que construir algo novo.
Agora, para ter a saúde em dia, não é mais necessário preparar um smoothie com leite de amêndoas, mirtilos, cogumelo juba-de-leão, colágeno, ômega 3, cúrcuma, couve e gratidão. A nova regra é café preto com óleo de coco e um bife.
Essas tendências são sedutoras pela simplicidade: permitem que a "pessoa comum" siga a dieta sem grande esforço mental e sem sacrificar o paladar. Há um elemento crucial compartilhado entre essas novas dietas e os alimentos ultraprocessados hiperpalatáveis: a alta quantidade de gordura, uma vez que o açúcar mantém os status de vilão.
Assim como o goji berry e a guerra ao glúten, as dietas bíblicas, da roça, da selva ou quaisquer outras fórmulas milagrosas também passarão. O fato é que elas não entregarão ao adepto uma barriga chapada sem fome, nem a disposição para correr 10km às 6h da manhã, muito menos a clareza mental para ler um livro por semana sem sacrifícios. O que se vende é invariavelmente maior do que o possível. E isso ultrapassa a bioquímica; é uma questão ideológica.
A paranoia
Como prometido, o foco aqui é a ideologia no laço social que permitiu a construção dessas tendências.
Como apontado por Freud no caso Schreber em 1911 e, posteriormente, desenvolvido por Melanie Klein sobre a posição esquizo-paranoide, a paranoia serve (de maneira muito simplificada) como uma proteção contra aquilo que está dentro e nos ameaça, transpondo essa ameaça para o meio externo.
Ainda que essas novas tendências possam ser adotadas pelo sujeito neurótico (que não se ancora na paranoia como defesa principal), a inscrição dessas filosofias alimentares no laço social se dá pela via paranoica:
Devo ser forte, robusto e disposto.
Não consigo. Entretanto, vejo que há quem consiga.
Este outro deve, obrigatoriamente, ter algo que eu não tenho.
Se a autoridade diz para eu fazer "X" e, ao fazê-lo, não obtenho o resultado que o outro tem, a autoridade deve, necessariamente, estar me enganando para esconder o segredo.
Encontramos aí um elemento central da paranoia: a ameaça.
O golpe é duplo. Primeiramente, não é uma ameaça externa que aflige aquele que não consegue emagrecer, mas uma questão interna, sendo esta rejeição, inadequação ou qualquer outra roupagem da angústia. A partir daí, apresenta-se um "aliado" que, pela via da identificação, oferece a saída.
Diferente de outros tempos, onde a solução vinha de figuras inalcançáveis, agora os salvadores são, obrigatoriamente, pessoas "comuns". Eles tinham o mesmo problema que você e oferecem a solução após terem sido, também eles, "enganados pelo sistema".
Não há mais a oferta da forma física perfeita vinda de quem sempre a teve, mas sim daquele que foi ludibriado e descobriu o caminho para o "desengano". É curioso notar que este é o mesmo argumento dos gurus financeiros atuais: pessoas que ficaram ricas repentinamente não por herança ou sorte, mas porque descobriram "soluções espertas" (as quais você pode acessar mediante uma mensalidade).
Saber o que "Eles" estão escondendo — e quem são "Eles" fica a cargo da imaginação do destinatário — é uma chamada publicitária poderosa. O problema surge quando isso é levado às últimas consequências, e os mecanismos de proteção social falham. E essa falha, ironicamente, também faz parte do lobby.
